Sociedade Brasileira de Radiologia Intervencionista e Cirurgia Endovascular

Radiologia intervencionista e doenças aórticas. Como podemos atuar?



Sabia que ao longo da vida, a aorta absorve o impacto de 2 a 3 bilhões de batimentos cardíacos enquanto  distribui aproximadamente 2 milhões de litros de sangue pelo corpo? Os números grandiosos indicam o quanto essa artéria “trabalha” e também demonstram a sua importância para a engrenagem que mantém o ser humano vivo.  Mas, e quando as doenças aórticas prejudicam o funcionamento do corpo, o que fazer e qual tratamento escolher?

Para conversar sobre esse tema tão importante, convidamos para um bate-papo o Radiologista Intervencionista Rubens Pierry Ferreira Lopes, diretor técnico do departamento de Radiologia Intervencionista e Cirurgia Endovascular do CATHE - Centro Avançado de Terapia Hemodinâmica do Hospital SOBRASA, em Teixeira de Freitas (BA).

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SOBRICE - Dr. Rubens, quais os principais sintomas e como prevenir o surgimento das doenças aórticas?
Dr. Rubens Pierry F. Lopes
. A aorta é a maior artéria do corpo humano e é através dela que o sangue, bombeado pelo coração, é distribuído para todos os segmentos e órgãos do organismo. E, por se estender do tórax ao abdome, as doenças aórticas podem ser localizadas preferencialmente em um segmento da mesma, ou acometer mais de um segmento, a depender da enfermidade em questão. Os tipos de patologias aórticas são em grande número, assim como suas formas de apresentações. Em condições de destaque, por suas maiores incidência e prevalência, encontram-se a doença aterosclerótica, os aneurismas e as dissecções, mas também podemos citar as úlceras penetrantes e o hematoma intramural, além de outras condições menos frequentes. A forma de apresentação dessas patologias varia amplamente, desde casos completamente assintomáticos até quadros dramáticos de morte súbita. Quando presente, o sintoma mais frequente é a dor torácica e/ou abdominal de início súbito e forte intensidade. Levando-se em conta o caráter multifatorial das patologias aórticas, devem ser controlados especialmente os fatores de risco modificáveis da doença aterosclerótica, incluindo o tabagismo, hipertensão arterial, diabetes mellitus, dislipidemias e o sedentarismo. Por outro lado, existem fatores não modificáveis, como algumas patologias genéticas, sobre os quais ainda a medicina tem pouco a oferecer, além do que muitos aspectos fisiopatológicos ainda não são plenamente compreendidos, de forma que algumas lacunas precisam ser preenchidas.
 
SOBRICE- Qual o papel e a importância da Radiologia Intervencionista hoje no trato das doenças aórticas?
Dr. Rubens Pierry F. Lopes. As patologias aórticas são particularmente complexas, não apenas pelo acometimento deste vaso, mas especialmente pelo fato de estarem intrínseca e frequentemente associadas ao envolvimento de órgãos nobres, como o coração, cérebro, rins, intestinos e os membros superiores e inferiores, de modo que o manejo de tais patologias deve ser necessariamente multidisciplinar. Outro aspecto a ser considerado é a tendência da adoção de tratamento através de técnicas minimamente invasivas, que consigam aliar eficácia, segurança, durabilidade, confiabilidade, menor tempo de hospitalização, menor custo global, maior conforto no período recuperação do procedimento e retorno mais precoce as atividades diárias. Todas essas características citadas estão inerentemente presentes nos procedimentos da radiologia intervencionista, especialidade que tem, a cada dia, dentro da abordagem multidisciplinar citada, ganhado mais espaço. A inventividade e inovação constantes são outras características marcantes da radiologia intervencionista quecontribuem sobremaneira na condução de casos complexos e desafiadores para os quais anteriormente as possibilidades de tratamentos eram bastante limitadas, permitindo que um maior número de pacientes possam ser efetivamente tratados.
 
SOBRICE - Em quais situações é interessante optar pelo tratamento baseado nos procedimentos da Radiologia Intervencionista em detrimento dos tratamentos tradicionais?
Dr. Rubens Pierry F. Lopes. Em primeiro lugar, poderíamos realizar um exercício mental sobre o significado das tradições. Entendemos como tradição aquilo que é costumeiro, incorporado ao uso rotineiro ou transmitido de geração para geração. Levando-se isso em conta, poderíamos considerar que vários dos procedimentos da radiologia intervencionista adotados para abordagem das patologias aórticas já são, há pelo menos uma ou duas décadas, os tratamentos tradicionais, visto que o número de casos tratados por tais técnicas é crescente ano a ano e, em várias circunstâncias, os números absolutos e relativos já superam as cirurgias clássicas “abertas”. Por tudo isso, a abordagem minimamente invasiva oferecida pela radiologia intervencionista é considerada primeira linha de tratamento, isoladamente ou associada a outras técnicas, dentro da abordagem multidisciplinar, reservando as cirurgias abertas para um menor número de casos, especialmente para aqueles em que não sejam tecnicamente factíveis ou que não existam soluções duradouras pelos métodos menos invasivos.
 
SOBRICE - Quais os principais procedimentos levados à frente por meio da Radiologia Intervencionista, nos casos das doenças aórticas?
Dr. Rubens Pierry F. Lopes.  A angioplastia transluminal percutânea é uma técnica amplamente utilizada no tratamento da doença aterosclerótica aortoilíaca e que visa restaurar o fluxo em áreas que apresentem limitações ao fluxo sanguíneo por placas ateroscleróticas, através de dilatações com balões, a fim de obter fraturas controladas das placas, associando-se ou não ao implante de stents. Por outro lado, no tratamento dos aneurismas são utilizadas próteses dedicadas que visam excluir o aneurisma da circulação e, assim, evitar suas complicações. Esta mesma natureza de prótese também pode ser utilizada no tratamento de outras condições, como nas dissecções ou mesmo nos traumas da aorta. O importante ressaltar é os tratamentos são individualizados, sendo necessária um estudo prévio detalhado de cada paciente a fim de determinar a melhor estratégia terapêutica e o tipo de prótese a ser empregado. O procedimento é guiado em tempo real por equipamentos de radiologia com tecnologia de ponta e, habitualmente, é realizado através de punções e/ou pequenas incisões nas virilhas, por onde as próteses são introduzidas. Pelo seu caráter minimamente invasivo e com menor morbimortalidade perioperatória, para os procedimentos eletivos e não complicados, a estadia hospitalar é de poucos dias e o retorno as atividades diárias é abreviado.
 
SOBRICE - Os procedimentos da Radiologia Intervencionista, especialmente nos casos das doenças aórticas, apresentam algum tipo de efeito colateral ou risco iminente para o paciente?
Dr. Rubens Pierry F. Lopes. As patologias aórticas têm natureza crônica e podem progredir com o tempo, passando a acometer segmentos previamente não comprometidos. Por isso, tão importante quanto o tratamento inicial são as orientações para um rigoroso acompanhamento pós-operatório durante toda a vida, a fim de avaliar periodicamente a manutenção de um resultado técnica adequado, assim como poder ativamente pesquisar e identificar eventuais complicações e/ou efeitos adversos tardios que requeiram reintervenções. Para isso, o paciente deve visitar o seu médico dentro da peridiocidade por ele recomendada a fim de ser clinicamente avaliado e submeter-se aos exames complementares necessários.
 
SOBRICE - Há estudos e levantamentos que demonstram o sucesso dos procedimentos da Radiologia Intervencionista nos casos dessas doenças?
Dr. Rubens Pierry F. Lopes.  A literatura na área é extensa e robusta. Especialmente nas últimas três décadas têm se produzido ciência de alta qualidade que embasa a tomada da melhor decisão para cada caso. O mais importante é priorizar a saúde dos nossos pacientes, através da discussão multidisciplinar de todos os casos, e decidir a estratégia que alie o maior número de atributos que aumentem as chances de sucesso técnico e clínico.
 

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